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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A Redação na Unicamp 2012: Gênero 3 – Verbete

http://www.comvest.unicamp.br/vest2012/F1/f12012QZ.pdf

Finalmente o terceiro e mais inesperado dos gêneros da Unicamp 2012: o verbete. Novamente o desespero poderia tomar conta de quem lesse o tema e começasse a pensar no número de verbetes que escreveu durante a vida (meu palpite: zero). Era possível deduzir as características do tema pela leitura atenta da proposta, mas, infelizmente, desta vez o texto usado para contextualizar o gênero trouxe mais dúvidas que informações úteis. Observe:

Imagine-se na posição de um leigo em informática que, ao ler a matéria Cabeça nas nuvens, reproduzida abaixo, decide buscar informações sobre o que chamam de computação em nuvem. Após conversar com usuários de computador e ler vários textos sobre o assunto (alguns dos quais reproduzidos abaixo em I, II e III), você conclui que o conceito é pouco conhecido e resolve elaborar um verbete para explicá-lo. Nesse verbete, que será publicado em uma enciclopédia on-line destinada a pessoas que não são especializadas em informática, você deverá:

• definir computação em nuvem, fornecendo dois exemplos para mostrar que ela já está presente em atividades realizadas cotidianamente pela maioria dos usuários de computador;

• apresentar uma vantagem e uma desvantagem que a aplicação da computação em nuvem poderá ter em um futuro próximo.

Fica claro, pela leitura da proposta, que o propósito do verbete é definir o conceito de computação em nuvem. O fato de ele ser destinado à publicação em uma enciclopédia também ajuda a entender do que se trata o gênero. Porém, o trecho narrativo antes da proposta, que menciona o fato de o autor ser um leigo em informática, pode confundir algumas pessoas; afinal, normalmente as informações que aparecem na proposta de Redação da Unicamp devem ser explicitamente mencionadas no texto escrito pelo autor (especialmente as que estão em negrito). Isso significa que o verbete deveria dizer “eu sou um leigo em informática e resolvi escrever este texto para explicar a computação em nuvem, que é um conceito de informática”? Não faria sentido. Então, concluímos que toda a história sobre como o autor teve a ideia de escrever o texto pode ser desconsiderada no texto final.

Os principais argumentos para sustentar que o verbete não deve conter referências ao autor, especialmente referências ao fato de ele ser leigo, são os seguintes:

1 – o gênero verbete, sendo informativo, deve ser também objetivo, ou seja, ter foco na informação e não nas impressões e características individuais de quem escreve;

2 – o autor do texto, que era um leigo em informática, resolveu se informar sobre o assunto antes de escrever seu verbete. Quando ele finalmente escreve, portanto, podemos dizer que ele não é mais um completo leigo.

Portanto, temos aqui um texto informativo, com um autor impessoal. Some-se a isso o fato de o tema pedir não apenas uma definição, mas também dois exemplos, uma vantagem e uma desvantagem, e percebemos que o gênero está muito próximo de uma dissertação expositiva. Faz sentido, na verdade, que a Unicamp sempre coloque na prova um texto próximo à dissertação: afinal, muitos estudantes conhecem apenas esse tipo de texto, que é o mais trabalhado nas escolas, e seria injusto não dar a esses estudantes nenhuma oportunidade de aplicar seu conhecimento. Assim, a presença de um texto que é praticamente uma dissertação em todas as provas da Unicamp faz com que o candidato que só conhece esse tipo de texto tenha uma nota melhor que a de quem não conhece nenhum gênero, mas também faz com que esse aluno especializado consiga na soma das redações menos pontos que um candidato capaz de produzir textos em gêneros diversos.

Imagino que essa característica vá se modificar um dia, mas, por enquanto, percebo uma tendência da Unicamp a pedir, em toda prova, que se produza um texto dissertativo: no simulado de 2010, foi o editorial; no vestibular 2011, o artigo de opinião; agora, temos esse verbete como representante.

Supondo que você tenha concluído corretamente sobre a impessoalidade do gênero verbete, o restante é bem simples, praticamente uma paráfrase dos textos de apoio. É necessário, em primeiro lugar, definir o termo. Basta, para isso, encontrar as informações nos textos motivadores e formulá-las como uma definição. Ficaria algo assim:

“Computação em nuvem: sistema de computação em que o usuário não tem todo o equipamento em sua casa, mas usa equipamentos e programas que se localizam em outro local e são acessados por meio da internet.”

Tentei usar uma linguagem mais simples, sem termos como hardware, software e hospedagem, para atender a um outro aspecto do tema: o interlocutor, que é definido no tema como pessoas que não são especializadas em informática. Embora seja possível alguém concluir que deveria se dirigir ao leitor de forma explícita, o gênero verbete não tem essa característica (e, para ajudar a lembrar disso, o candidato poderia buscar na memória as vezes que leu uma enciclopédia). No entanto, como o verbete deveria ser publicado em uma enciclopédia on-line, que é um meio muito recente e com características ainda em processo de consolidação, não seria absurdo a Unicamp considerar as redações que usassem interlocução.

Além da definição, deveria haver dois exemplos de situações cotidianas em que a computação em nuvem é usada. Um exemplo muito explícito, o funcionamento dos provedores de e-mail, está no excerto II da coletânea:

Se você tem uma conta de e-mail com um serviço baseado na web, como Hotmail, Yahoo! ou Gmail, então você já teve experiência com computação em nuvem. Em vez de rodar um programa de e-mail no seu computador, você se loga numa conta de e-mail remotamente pela web.

(aí está mais uma indicação de que o gênero verbete não deveria ter interlocução; caso contrário, parte dele se tornaria uma cópia exata do texto motivador)

O outro exemplo é um pouco mais difícil de identificar, mas eu escolheria o disco virtual, ou seja, um espaço que permite guardar arquivos em um provedor remoto e que é citado no texto “Cabeça nas Nuvens”:

Diogo desenvolveu o Escola na nuvem (escolananuvem.com.br), um portal em que estudantes e professores se cadastram e podem armazenar e trocar conteúdos, como o trabalho de matemática ou os tópicos da aula anterior. As informações ficam em um disco virtual, sempre disponíveis para consulta via web.

Quanto à vantagem e a desvantagem, é possível encontrar ambas com facilidade; a vantagem, que está descrita no excerto II, pode ser parafraseada como “a possibilidade de usar programas em vários computadores sem ter que adquirir e instalar várias cópias desse programa”:

Em breve, deve haver uma alternativa para executivos como você. Em vez de instalar uma suíte de aplicativos em cada computador, você só teria de carregar uma aplicação. Essa aplicação permitiria aos trabalhadores logar-se em um serviço baseado na web que hospeda todos os programas de que o usuário precisa para o seu trabalho. Máquinas remotas de outra empresa rodariam tudo – de e-mail a processador de textos e a complexos programas de análise de dados. Isso é chamado computação em nuvem e poderia mudar toda a indústria de computadores.

Como desvantagem, poderia ser citado o risco de se perder a conexão com a internet, ou até mesmo problemas de segurança relacionados ao fato de as informações de uma empresa, por exemplo, estarem hospedadas em poder de outra empresa. O excerto III se dedica justamente a mencionar esses aspectos possivelmente negativos:

A simples ideia de determinadas informações ficarem armazenadas em computadores de terceiros (no caso, os fornecedores de serviço), mesmo com documentos garantindo a privacidade e o sigilo, preocupa pessoas, órgãos do governo e, principalmente, empresas. Além disso, há outras questões, como o problema da dependência de acesso à internet: o que fazer quando a conexão cair?

Quanto à linguagem, vamos reforçar aqui o que já foi dito acima: sabendo que o público não é especializado em informática, o mais importante é evitar o uso de termos técnicos. Mas a formalidade deve estar presente, da mesma forma que nos outros dois gêneros.

Portanto, o gênero verbete, ainda que pareça estranho à primeira vista, acaba por se revelar bastante simples. Ainda acredito que a Unicamp poderia ter deixado de lado a historinha que explicava a gênese da ideia de escrever um verbete sobre computação em nuvem, mas talvez a intenção tenha sido justamente a de valorizar uma leitura ainda mais profunda, capaz de diferenciar os elementos fundamentais do gênero daqueles que só apareceram como contexto.

E você, o que achou da prova? Comente aqui.

Na próxima oportunidade, vamos conversar sobre o famigerado projeto de texto. Até lá.

A Redação na Unicamp 2012: Gênero 2 – Manifesto

http://www.comvest.unicamp.br/vest2012/F1/f12012QZ.pdf

O segundo tema pedia ao aluno que escrevesse um manifesto. Alguém poderia ver essa palavra e se desesperar, pensando “nunca escrevi isso, e agora?”. Mas muita calma. O mais importante (e quem tem aula comigo já se cansou de ouvir isso) não é conhecer de antemão o nome que a Unicamp usa para o gênero e sim entender as características pedidas na proposta. E nem sempre elas são características típicas (o tema que vamos ver agora é um exemplo dessa afirmação).

O tema começa com uma contextualização:

Coloque-se no lugar dos estudantes de uma escola que passou a monitorar as páginas de seus alunos em redes sociais da internet (como o Orkut, o Facebook e o Twitter), após um evento similar aos relatados na matéria reproduzida abaixo.
Em função da polêmica provocada pelo monitoramento, você resolve escrever um manifesto e recebe o apoio de vários colegas. Juntos, decidem lê-lo na próxima reunião de pais e professores com a direção da escola.

Vamos analisar, então, o propósito do gênero; o candidato deveria:

• explicitar o evento que motivou a direção da escola a fazer o monitoramento;

• declarar e sustentar o que você e seus colegas defendem, convocando pais, professores e alunos a agir em conformidade com o proposto no documento.

Podemos dizer que se trata de um texto expositivo/narrativo, já que uma parte do propósito é relatar um evento que teria motivado a escola a iniciar um monitoramento das atividades dos alunos em redes sociais, e também opinativo/persuasivo, porque é necessário fazer uma proposta e convocar o público que ouve a leitura do documento a tomar uma atitude sugerida pelos autores.

Para cumprir bem esses dois pontos do propósito, você poderia, em primeiro lugar, se aproveitar do texto motivador. Lembre-se de que a função desses textos não é atrapalhar (mesmo que às vezes surja essa impressão), mas sim fornecer informações para que as pessoas que não conheciam o assunto de antemão tenham como escrever um bom texto sobre ele. Por isso, podemos dizer que ler bem a coletânea ou o texto motivador é muito mais importante que ‘adivinhar’ o tema.

No texto apresentado na proposta, havia três situações (na verdade eram quatro, mas duas eram muito parecidas) que poderiam ser utilizadas. Lembre-se de que, ao contextualizar a situação, o tema disse que a escola passou a monitorar os alunos “após um evento similar aos relatados na matéria reproduzida abaixo”. Então, é lógico supor que a Unicamp espera dos candidatos o uso de um dos eventos desse texto. Seria possível inventar outro, não presente na matéria? Sim, mas, além de desnecessária, essa estratégia faz com que o candidato deixe de usar o texto motivador. E temos visto, nas redações corrigidas pela Unicamp, que as redações com notas mais altas têm usado bastante os elementos desses textos.

As situações descritas na matéria são as seguintes:

1: “Durante uma aula vaga em uma escola da Grande São Paulo, os alunos decidiram tirar fotos deitados em colchonetes deixados no pátio para a aula de educação física. Um deles colocou uma imagem no Facebook com uma legenda irônica, em que dizia: vejam as aulas que temos na escola. Uma professora viu a foto e avisou a diretora. Resultado: o aluno teve de apagá-la e todos levaram uma bronca.”;

2: Um casal foi suspenso por publicar uma foto em que eles se beijavam nas dependências da escola;

3 e 4: em duas escolas diferentes, alunos criaram comunidades virtuais em que havia troca de respostas de exercício pedidos pela escola. Em um dos casos, o aluno responsável pela página sofreu suspensão; no outro, os responsáveis não foram punidos e o evento levou a uma discussão sobre ética.

Não me parece que um dos eventos seja mais adequado à discussão que os demais. Qualquer um deles, e até uma combinação de dois ou mais, pode ser a causa do início do monitoramento. Mas vale notar que, enquanto os dois primeiros casos levaram a punições apenas por criar má publicidade para as escolas, os últimos levantam uma discussão sobre o uso das ferramentas virtuais para burlar as regras escolares.

A segunda parte do propósito seria elaborar uma proposta de ação. Não há indicações, no tema, de qual seria o teor exato dessa proposta; assim, podemos assumir que serão aceitas sugestões variadas, desde o fim do monitoramento por parte da escola até a abertura, na comunidade escolar, de discussões sobre privacidade e responsabilidade. Como não basta declarar, mas é necessário também sustentar uma posição, o candidato precisaria encontrar alguns argumentos para defender a proposta.

Importante: embora pareça óbvio que os estudantes iriam se posicionar contra o monitoramento, existe a possibilidade contrária. Nada impede que um grupo de estudantes, depois de observar a polêmica causada pelo monitoramento, tenha resolvido escrever um manifesto justamente para apoiar a atitude da escola, pois perceberam que talvez a instituição voltasse atrás devido às críticas feitas por outros alunos (quem tem acompanhado a polêmica da PM na USP deve ter percebido que estudantes não são sempre unânimes nas suas opiniões).

De qualquer forma, é aqui que se abre a maior possibilidade de autoria: os argumentos usados podem variar bastante, mas sempre têm que ser coerentes com a posição defendida pelo autor do texto e com a proposta escolhida.

Quanto à interlocução e à definição do autor e do interlocutor, note o que o tema pediu: “Coloque-se no lugar dos estudantes de uma escola”, com o termo ‘estudantes’ no plural. Essa característica, que, aliás, é comum em manifestos, permite concluir que o texto deve ser escrito em nome de um grupo de pessoas e não de um indivíduo. O início poderia ser algo do tipo “nós, estudantes do Colégio Tal, em face da polêmica criada pela decisão de...”; isso estabeleceria o autor como o grupo de estudantes e provavelmente seria o suficiente para cumprir essa parte da obrigação. O fato de o texto ser escrito em nome de um grupo também permitiria um uso um pouco menos freqüente das características particulares do autor. Não me parece condizente com o gênero escrever coisas como “eu, que gosto muito de História, notei uma semelhança entre a atitude da escola e a política repressora da Ditadura Militar”. Esse recurso, que é chamado máscara e consiste em mencionar características pessoais do autor que serão úteis para atingir o propósito do texto, faz menos sentido quando o autor não é um indivíduo.

Por fim, o meio e a linguagem: o tema diz que o manifesto deve ser escrito na modalidade oral formal e que deve ser lido em uma reunião entre pais, professores e direção da escola. Essas características aproximam muito o texto de um gênero cobrado no ano anterior, o discurso. Com a diferença, no entanto, de que o tema deste ano é opinativo/persuasivo, com um pouco de exposição e narração, enquanto o do ano passado era muito mais expositivo. Mas a situação de leitura do manifesto para uma plateia torna possível o uso de elementos de interlocução como a saudação e a despedida, e o fato de o propósito incluir a convocação dos ouvintes para agir de acordo com uma proposta faz com que a referência ao interlocutor seja ainda mais esperada nesse texto, especialmente no momento em que a proposta for explicitada. Imagino algo como “por isso, você, pais, conversem com seus filhos sobre a importância da responsabilidade ao postar conteúdo nas redes sociais”, ou “esperamos que vocês da direção respeitem nossa privacidade e busquem resolver os problemas que surgirem por meio do diálogo e não da imposição de regras unilaterais”.

Ainda sobre a linguagem, lembre-se de que oralidade não é sinônimo de informalidade; além de o tema ter afirmado explicitamente que é necessário escrever um texto formal, a própria situação de produção (uma reunião da escola) e o propósito de persuadir os interlocutores indicam a necessidade do uso de uma linguagem gramaticalmente correta e respeitadora da norma padrão.

O gênero 2, portanto, novamente valorizou a leitura atenta do candidato e o respeito às exigências da proposta, e ainda serviu como um argumento para uma tese que eu defendo sempre: o mais importante não é o nome usado para se referir ao gênero e sim as características dele que são apresentadas na proposta.

Infelizmente, o terceiro gênero não foi formulado de maneira tão clara quanto poderia, o que talvez tenha levado alguns candidatos a uma impressão errada. Mas vamos conferir os detalhes no próximo post.

Sobre a redação no vestibular Unicamp 2012: Gênero 1 - Comentário

A prova da Unicamp 2012 pediu três gêneros diferentes, assim como havia ocorrido no vestibular 2011. Curiosamente, eles foram muito parecidos com os do ano passado, o que me leva a pensar se a Unicamp não está criando uma nova fórmula para sua prova (ao contrário do que foi anunciado nos cursos de correção oferecidos pela própria Unicamp).

Se você chegou agora e está um pouco perdido, aí vai um breve resumo da situação: a partir do vestibular 2011, realizado ano passado (o de ontem foi a primeira fase do vestibular 2012), a Unicamp abandonou seu tradicional modelo de 1ª fase, que consistia em 12 questões dissertativas e uma redação escolhida dentre três opções (dissertação, narração e carta argumentativa); no lugar desse formato, apareceram 48 questões de múltipla escolha e três redações obrigatórias, de gêneros variados (ou seja, o candidato não sabe de antemão quais gêneros serão cobrados na prova). A justificativa para a mudança na redação é que o modelo com três tipos de texto fixos levava a um treinamento dos candidatos para escrever apenas um tipo de texto (já que ele podia escolher) e que isso acabava valorizando não os bons leitores e sim os estudantes mais ‘bitolados’, os que memorizavam melhor algumas fórmulas de escrita. Com o novo modelo, e especialmente por causa da ausência de uma lista definida de gêneros, a ideia é valorizar o aluno que leu bastante, durante toda a vida escolar, e que consegue identificar as características de gêneros diversos, sem treinar especificamente para um deles.

Na prova de redação do vestibular Unicamp 2011 (relembre a prova aqui: http://www.comvest.unicamp.br/vest2011/F1/f12011QZ.pdf), os gêneros pedidos foram um comentário para o site da MTV, um discurso de apresentação para uma palestra sobre ensino de Ciências e um artigo de opinião sobre as chuvas que atingiram o país no início de 2010. Sobre este último tema, um detalhe muito estranho foi que a Unicamp prejudicou as pessoas que conheciam realmente o gênero artigo de opinião, pois o considerou um gênero impessoal, ou seja, em que o autor não se revela diretamente. Isso vai contra os milhares de exemplos de artigos de opinião publicados diariamente na mídia, por autores como Diogo Mainardi, Luiz Felipe Pondé, Lia Luft, Contardo Calligaris, Carlos Heitor Cony, Roberto Pompeu de Toledo e Arnaldo Jabor, para citar apenas alguns dos mais conhecidos, que costumam usar a primeira pessoa do singular em seus textos. Mas não vamos discutir esse assunto aqui, pois o tema agora é a prova de 2012.

Este ano, o primeiro gênero era, novamente, um comentário. O segundo foi um manifesto, embora possuísse também características de discurso. E o terceiro, o que causou a maior surpresa dentre os três, foi um verbete para uma enciclopédia online. Vamos aos comentários de cada um:

Gênero 1 – Comentário

http://www.comvest.unicamp.br/vest2012/F1/f12012QZ.pdf

Com tantos gêneros para pedir, por que repetir um deles? Ainda acho que seria mais interessante (e mais coerente com a proposta da Unicamp) explorar novos gêneros, mas enfim... a verdade é que, embora o nome comentário seja o mesmo usado no ano passado, o gênero deste ano teve características um pouco diferentes. O comentário do ano passado era puramente expositivo: o candidato deveria se colocar na posição de um jovem e comentar um gráfico encontrado no site da MTV, apontando algumas de suas características e revelando em que medida se identificava com os resultados da pesquisa. Apesar do compreensível déja-vu que a proposta de 2012 provoca (é um comentário, tem um gráfico, é voltada a um site fequentado por jovens...), uma diferença importante é que, desta vez, o candidato precisaria se posicionar em relação a outro comentário. Portanto, entra aí um aspecto de argumentação que estava ausente da prova de 2011.

Muita gente sabe como fazer dissertações, mas como escrever um comentário? É a mesma coisa? É só escrever tudo o que se passa pela sua cabeça? Na verdade, o mais importante é cumprir a proposta em seus detalhes específicos. E o que foi pedido no gênero 1 do vestibular Unicamp 2012 não foi simplesmente um comentário sobre o que é ser cientista ou sobre se o candidato quer ou não ser cientista. Atente para o propósito específico:

- fazer uma análise do gráfico, sugerindo o que pode ser concluído a partir dos resultados da pesquisa;

- posicionar-se frente à opinião do Estudante Paulista, levando em conta a análise que você fez do gráfico.

Então, o primeiro passo era uma análise do gráfico. Observando-o, percebemos algumas coisas interessantes e que poderiam ser usadas no texto. Primeiro, o número de meninos interessados na carreira científica é consistentemente maior que o número de meninas interessadas na mesma carreira (as exceções são Uganda e Lesoto). Além disso, a curva do gráfico revela um critério nas respostas: de forma geral, quanto mais desenvolvido o país, menos interesse as pessoas têm pela carreira científica. Essa conclusão pode parecer contraditória, já que os países ricos são normalmente os que mais investem em ciência. Mas lembre-se de que o gráfico que estamos vendo foi apresentado fora de contexto, ou seja, não sabemos em que condições a pergunta foi feita (houve uma explicação do que é ser cientista? Havia outras perguntas?) e nem sabemos exatamente o que significam os números (porcentagem de pessoas que respondeu sim? Número absoluto de respostas positivas?). Uma possível interpretação dessa curva seria a seguinte: em países ricos, as pessoas têm diversas opções em seu futuro profissional. A carreira científica, portanto, concorre com várias outras pelo interesse dos estudantes. Já nos países menos desenvolvidos, a carreira científica seria encarada como uma opção melhor que a ausência de emprego, que é uma realidade presente e muito preocupante. Minha aposta é que, se a pergunta fosse “você gostaria de ser empresário?” ou “você gostaria de ser professor?”, a curva seria muito próxima da apresentada no tema. Outra possibilidade a ser contemplada é a de que muitos habitantes de países periféricos talvez tenham uma visão romantizada da ciência, sem contato real com a profissão de cientista, e por isso talvez enxerguem nessa carreira um glamour que os moradores de grandes cidades e frequentadores de universidades sabem ser ilusório.

Não é necessário comentar tão profundamente o gráfico, até porque o espaço de 22 linhas é muito curto. Tenho a impressão de que as informações que a Unicamp esperava são mesmo a discrepância entre o interesse de meninos e meninas e o fato de a curva seguir aproximadamente o grau de desenvolvimento econômico dos países. Porém, a capacidade de explicar o gráfico poderia ser útil devido a uma outra exigência da proposta, que discutirei daqui a pouco.

O tema incluía também a necessidade de se posicionar sobre a opinião do Estudante Paulista, que fez o seguinte comentário:

Às 15h42, Estudante Paulista escreveu:

Vejam este gráfico! Ele mostra o resultado de uma pesquisa sobre o interesse de estudantes de vários lugares do mundo pela carreira científica. Vocês não acham que essa pesquisa reflete muito bem a realidade? Eu, por exemplo, sempre morei em São Paulo e nunca pensei em ser cientista!

Há uma pergunta feita de forma explícita no comentário do Estudante Paulista: “Vocês não acham que essa pesquisa reflete muito bem a realidade?”. Um comentário escrito em resposta, portanto, deveria apresentar sua posição em relação a essa pergunta. Você poderia dizer que sim, que acredita que a pesquisa revela a realidade e apresentar sua própria visão pessoal, dizendo se quer ou não ser cientista e qual é a opinião de outras pessoas de seu convívio. Mas também poderia dizer que não acredita que a pesquisa reflete a realidade e até acrescentar que a opinião pessoal do estudante paulista, embora certamente válida para ele, não significa necessariamente a opinião geral das pessoas que vivem na mesma cidade. Você poderia até mesmo afirmar que também vive em São Paulo e sonha ser cientista.

É nesse momento, supondo que você discorde da opinião do Estudante Paulista, que seria interessante explicitar o significado que o gráfico teve para você. Uma possibilidade foi a que eu comentei anteriormente: o gráfico pode significar que muitas pessoas de países periféricos enxergam a ciência como uma forma de sair de uma situação de desemprego. Dessa forma, é possível responder ao Estudante Paulista que a maioria das pessoas no Malavi provavelmente não pensa o tempo todo “como eu gostaria de ser cientista!”, mas que, ao ouvirem a pergunta, muitos encararam pela primeira vez a ciência como uma possível carreira e responderam afirmativamente, pensando “certamente eu gostaria mais de ser cientista do que de não ter um emprego ou de ter uma ocupação pouco valorizada”. Assim, o gráfico representaria uma realidade, mas não necessariamente a realidade do interesse pela ciência. (Vale a pena reforçar aqui: o que eu disse acima é apenas uma possibilidade, não uma obrigação. Você poderia defender qualquer outra opinião, desde que houvesse no gráfico elementos para sustentá-la).

Quanto ao outro elemento da proposta (o fato de o comentário estar em um fórum voltado a concluintes do Ensino Médio), era possível atribuir essa característica ao autor do texto. Você poderia escrever algo como “eu, que também estou concluindo o Ensino Médio, penso muito em que profissão seguir, e sempre (ou nunca, ou às vezes) considero a carreira científica como uma possibilidade”. Mas não creio que seria obrigatório fazer essa referência. Afinal, o tema não diz que o autor do texto deve ser um concluinte do Ensino Médio, apenas que o meio em que ele vai escrever é voltado a esse público.

Por fim, a linguagem. Como se trata de um comentário espontâneo em um fórum na internet, o candidato poderia concluir que uma linguagem informal, até mesmo com o uso do “internetês”, seria recomendável. Embora eu acredite que é verossímil haver um alto grau de informalidade nesse tipo de resposta (e quem costuma ler postagens em fóruns pela internet sabe muito bem disso), a Unicamp tende a valorizar uma linguagem mais formal. E a presença dessa formalidade não é inverossímil, principalmente porque o assunto tratado no tema é mais sério que a média dos assuntos comentados na internet. Também é comum que as pessoas que querem ser levadas a sério em uma discussão tentem caprichar um pouco mais na linguagem. Isso não significa fazer um texto rebuscado, cheio de termos arcaicos ou pedantes, mas sim tentar respeitar a norma padrão da língua portuguesa (vou discutir esse conceito algum dia, mas não hoje).

Enfim, o comentário foi um tema que, mesmo revelando certa falta de imaginação por parte da Unicamp, não deve ter causado muitas dificuldades para um candidato que leu com atenção a proposta e fez o projeto de texto.

Vestibular Unicamp

Ontem, 13/11, aconteceu a primeira fase do vestibular Unicamp, composta de 3 redações e 48 questões. Confira a prova no site da Unicamp (http://www.comvest.unicamp.br/vest2012/F1/provasf1.html) e a resolução no site do Elite (http://www.elitecampinas.com.br/gabaritos/unicamp/2012/unicamp2012_1fase.asp).