terça-feira, 12 de novembro de 2013

A Redação na Unicamp 2014: Gênero 1 - Relatório



Neste e no próximo post, que deve ser publicado amanhã, vou comentar as propostas do vestibular Unicamp 2014.

O primeiro gênero pedido na prova da Unicamp 2014 foi um relatório. Esse nome pode ter causado algum espanto nos alunos, mas, como de costume, a solução é bastante simples: ler a prova com cuidado e preencher os elementos que compõem o gênero na situação específica proposta pela Unicamp. 

A prova de 2014 pediu, mais especificamente, um relatório de atividade, em que alunos de uma escola iriam explicar como foi planejada e realizada uma oficina cultural. Veja a proposta abaixo ou na página da Comvest:


 


  
Como de costume nas provas da Unicamp, não basta saber o nome do gênero: muito mais importante é entender as partes que o compõem e o propósito específico desse gênero na situação colocada pela banca elaboradora. Ao mesmo tempo, não há motivo para se desesperar se o gênero parece desconhecido, porque a própria prova oferece informações suficientes para o candidato produzir seu texto. 

1. O propósito: 

Neste ano, houve uma pequena mudança na forma como a proposta foi apresentada: em vez de colocar algumas obrigações em um texto e o restante em tópicos, a Unicamp concentrou a contextualização do gênero nos dois primeiros parágrafos e a tarefa no último parágrafo da proposta. 

Os propósitos do relatório incluíam:

  • apresentar o projeto (incluindo informações sobre público-alvo, objetivos e justificativa);
  • relatar as atividades desenvolvidas; e 

  • fazer comentário(s) sobre os impactos das atividades na comunidade. 

    Mesmo se você nunca tivesse elaborado um relatório de atividades, esses elementos serviriam como uma base sólida para seu texto. A julgar pelas provas recentes da Unicamp, os examinadores deverão buscar identificar cada uma dessas tarefas nas redações dos candidatos.

Observando com cuidado os elementos da proposta e prestando atenção também ao contexto em que o gênero foi produzido, percebemos que se trata de um texto essencialmente informativo. A intenção do relatório não é opinar nem convencer, por exemplo, mas apresentar fatos aos professores que irão julgar a qualidade da oficina realizada.

Esse gênero exigiu um pouco mais de inventividade do que os gêneros pedidos nos anos anteriores; digo isso porque o candidato precisaria criar uma oficina cultural. Ele poderia escolher um tema da lista presente no texto motivador, mas, ainda assim, teria que explicar quais atividades específicas foram realizadas, justificar essas atividades e imaginar até os resultados delas para a comunidade. Como é improvável que a prova esteja tentando avaliar a capacidade dos candidatos para elaborar projetos culturais, é natural assumir que qualquer tema ou atividade da lista seria aceitável.

 2. O locutor: 

A banca a pediu ao candidato que se colocasse como o membro de um grupo de alunos responsável por elaborar o relatório. Alguns candidatos devem, por esse motivo, ter explicitado esse fato, dizendo algo do tipo “sou aluno da escola tal e fui escolhido para escrever este relatório”. Porém, as informações presentes na proposta dão a entender que não é essa a intenção da banca, já que o propósito do gênero não é auxiliado por esse tipo de intervenção pessoal. Minha avaliação é a de que os examinadores irão valorizar textos impessoais ou com poucas intervenções do locutor, como “nosso grupo escolheu o tema tal, por tal e tal motivo.”

É possível que a Unicamp aceite referências aos alunos que realizaram a oficina, desde que essas referências não estejam integradas ao texto. Por exemplo, é verossímil que um relatório de atividade apresente um “subtítulo” ou “assinatura” dizendo “Oficina realizada pelos alunos A, B e C, da turma tal da escola tal”; mas é estranho, em um texto objetivo e informativo, que haja a exploração de características dos autores integrada ao relato das atividades: “eu quis fazer uma oficina de cinema, porque eu gosto muito de filmes desde que meu pai me levou ao cinema pela primeira vez, para assistir ‘Xuxa em O Mistério de Feiurinha’”. Além da má escolha do filme, o trecho que acabei de citar traria um excesso de pessoalidade, que não contribui com o propósito do gênero. 

3. O interlocutor: 

O relatório seria avaliado por uma comissão de professores; no entanto, não parece haver necessidade de fazer referência direta a eles, tanto pelo propósito do gênero (essencialmente informativo) quanto pelo fato de que o texto será entregue diretamente aos leitores. Por isso, podemos imaginar um interlocutor universal como o mais adequado, principalmente se pensarmos na objetividade característica de um texto informativo (foi o que ocorreu também com o gênero verbete, no vestibular 2012) Para se dirigir a um interlocutor universal, basta não mencionar explicitamente quem é o leitor do texto. 

4. O meio: 

Quando um aluno se depara com um gênero desconhecido, é comum haver dúvidas sobre a estrutura esperada e o modo como ele deveria deixar claro que está fazendo o gênero correto. A melhor saída, como sempre, é procurar informações sobre isso na proposta.

No caso do relatório, trata-se de um gênero com circulação muito específica, em que cada instituição pode exigir um formato próprio (ao contrário do que ocorre com gêneros como a notícia e a carta, por exemplo). Portanto, temos razões para crer que a Unicamp irá aceitar diferentes maneiras de apresentá-lo.

Faz sentido que o relatório tenha um título do tipo “Relatório sobre a oficina cultural realizada em tal local em tal data”. Não faz sentido, por outro lado, um título de notícia (“Alunos levam cultura a comunidade carente”) ou de dissertação (“Oficinas culturais no Brasil do século XXI”). Não acredito, no entanto, que o título seja um critério determinante para a pontuação final do texto.

Uma estratégia que costuma funcionar em textos informativos, especialmente naqueles feitos para serem avaliados, é distribuir as informações em tópicos; mesmo que esses tópicos não sejam explícitos, seria interessante organizar o texto de maneira a separar claramente cada aspecto da tarefa, como no exemplo a seguir: “O público-alvo foi composto por pessoas da comunidade, principalmente jovens em idade escolar..; o principal objetivo da oficina foi colocar as pessoas em contato com...; a justificativa é que, dessa forma, esses jovens poderiam, no futuro...”.
 
5. A linguagem: 

Tudo indica que deveria ser usada uma linguagem formal, objetiva e impessoal, pelos motivos que eu já mencionei: trata-se de um texto informativo a ser avaliado por uma comissão. Se todos os elementos anteriores foram observados, deve ser natural que a linguagem escolhida tenha essas características.

Enfim, essa é a minha análise do primeiro gênero. Não é nada oficial, apenas a leitura que eu fiz da proposta: por isso, não fique desesperado se você tiver feito algo diferente do que eu mencionei aqui.

Amanhã eu posto o comentário do segundo gênero (carta aberta).

Até breve.