terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A Redação na Unicamp 2015: Gênero 1 - Síntese

Neste e no próximo post, vou comentar as propostas do vestibular Unicamp 2015. Não é nada oficial, mas vou tentar ajudar a tirar aquelas dúvidas que ficam depois da prova. Qualquer coisa, pode me mandar perguntas nos comentários e eu tento, na medida do possível, responder a todas.

O primeiro gênero pedido na prova da Unicamp 2015 foi uma síntese. Fiquei meio triste, porque a proposta me pareceu muito semelhante à do resumo, de 2013. Porém, houve algumas mudanças fundamentais, que tornaram o gênero mais factível e, espero eu, devem ter tornado mais simples a tarefa de corrigir adequadamente os textos.

Para quem estiver pensando em brigar com seus professores, que gastaram três aulas para falar sobre artigo de opinião e não dedicaram nenhuma à síntese, vale o consolo de sempre: a Unicamp parece estar dedicada a colocar na prova, todos os anos, um gênero de nome inesperado, que dificilmente se trabalha em sala de aula. Porém, isso não significa um aumento de dificuldade: lendo a proposta com atenção, é possível entender o que a Unicamp espera do gênero nessa situação específica.

Veja a transcrição da proposta abaixo ou, no formato original, na página da Comvest: http://www.comvest.unicamp.br/vest2015/F2/provas/redport.pdf

Você integra um grupo de estudos formado por estudantes universitários. Periodicamente, cada membro apresenta resultados de leituras realizadas sobre temas diversos. Você ficou responsável por elaborar uma síntese sobre o tema humanização no atendimento à saúde, que deverá ser escrita em registro formal. As fontes para escrever a síntese são um trecho de um artigo científico (excerto A) e um trecho de um ensaio (excerto B). Seu texto deverá contemplar:

            a) o conceito de humanização no atendimento à saúde;
            b) o ponto de vista de cada texto sobre o conceito, assim como as principais         informações que sustentam esses pontos de vista;
            c) as relações possíveis entre os dois pontos de vista.

Excerto A

A humanização é vista como a capacidade de oferecer atendimento de qualidade, articulando os avanços tecnológicos com o bom relacionamento.
O Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH) destaca a importância da conjugação do binômio "tecnologia" e "fator humano e de relacionamento". Há um diagnóstico sobre o divórcio entre dispor de alta tecnologia e nem sempre dispor da delicadeza do cuidado, o que desumaniza a assistência.
Por outro lado, reconhece-se que não ter recursos tecnológicos, quando estes são necessários, pode ser um fator de estresse e conflito entre profissionais e usuários, igualmente desumanizando o cuidado. Assim, embora se afirme que ambos os itens constituem a qualidade do sistema, o "fator humano" é considerado o mais estratégico pelo documento do PNHAH, que afirma:
(...) as tecnologias e os dispositivos organizacionais, sobretudo numa área como a da saúde, não funcionam sozinhos – sua eficácia é fortemente influenciada pela qualidade do fator humano e do relacionamento que se estabelece entre profissionais e usuários no processo de atendimento. (Ministério da Saúde, 2000).

(Adaptado de Suely F. Deslandes, Análise do discurso oficial sobre a humanização da assistência hospitalar. Ciência & saúde coletiva. Vol. 9, n. 1, p. 9-10. Rio de Janeiro, 2004.)

Excerto B

A famosa Faculdade para Médicos e Cirurgiões da Escola de Medicina da Columbia University, em Nova York, formou recentemente um Programa de Medicina Narrativa que se ocupa daquilo que veio a se chamar “ética narrativa”. Ele foi organizado em resposta à percepção recrudescente do sofrimento – e até das mortes – que podia ser atribuído parcial ou totalmente à atitude dos médicos de ignorarem o que os pacientes contavam sobre suas doenças, sobre aquilo com que tinham que lidar, sobre a sensação de serem negligenciados e até mesmo abandonados. Não é que os médicos não acompanhassem seus casos, pois eles seguiam meticulosamente os prontuários de seus pacientes: ritmo cardíaco, hemogramas, temperatura e resultados dos exames especializados. Mas, para parafrasear uma das médicas comprometidas com o programa, eles simplesmente não ouviam o que os pacientes lhes contavam: as histórias dos pacientes. Na sua visão, eles eram médicos “que se atinham aos fatos”. “Uma vida”, para citar a mesma médica, “não é um registro em um prontuário”. Se um paciente está na expectativa de um grande e rápido efeito por parte de uma intervenção ou medicação e nada disso acontece, a queda ladeira abaixo tem tanto o seu lado biológico como psíquico.
“O que é, então, a medicina narrativa?”, perguntei*. “Sua responsabilidade é ouvir o que o paciente tem a dizer, e só depois decidir o que fazer a respeito. Afinal de contas, quem é o dono da vida, você ou ele?”. O programa de medicina narrativa já começou a reduzir o número de mortes causadas por incompetências narrativas na Faculdade para Médicos e Cirurgiões.

*A pergunta é feita por Jerome Bruner a Rita Charon, idealizadora do Programa de Medicina Narrativa.

(Adaptado de Jerome Bruner, Fabricando histórias: direito, literatura, vida. São Paulo: Letra e Voz, 2014, p. 115-116.)

Como de costume nas provas da Unicamp, não basta saber o nome do gênero: muito mais importante é entender as partes que o compõem e o propósito específico desse gênero na situação colocada pela banca elaboradora. Ao mesmo tempo, não há motivo para se desesperar se o gênero parece desconhecido, porque a própria prova oferece informações suficientes para o candidato produzir seu texto.

1. O propósito:

Neste ano, voltou a listinha de obrigações. Mais uma vez apareceram informações que servem apenas para a contextualização, mas que não deveriam ser incluídas na versão final do texto (isso já aconteceu no verbete, no resumo e no relatório; é mais um motivo pelo qual vale muito a pena estudar as provas anteriores)

O propósito da síntese era, basicamente, reproduzir as informações centrais de dois outros textos, apresentados pela banca. Como é bastante comum nas provas recentes da Unicamp, não se exige do candidato um conhecimento prévio do assunto. Eu costumo dizer que a redação da Unicamp é essencialmente uma prova de tradução, não de criação: o que a banca espera é que o candidato transfira as ideias de um texto escrito em um gênero para um gênero diferente.
De forma semelhante à do relatório do ano passado, as instruções do propósito estavam bem claramente definidas, nos tópicos a), b) e c), que diziam quais informações deveriam ser buscadas nos textos e incluídas na síntese:

            a) o conceito de humanização no atendimento à saúde;
            b) o ponto de vista de cada texto sobre o conceito, assim como as principais         informações que sustentam esses pontos de vista;
            c) as relações possíveis entre os dois pontos de vista.

(curiosidade: no ano passado, as informações foram todas passadas em um texto corrido; antes, até 2013, a Unicamp usava pontinhos, e não letras, para especificar as tarefas. Se você também notou isso, está na hora de procurar um hobby).

Para cumprir a parte a) da proposta, o candidato deveria encontrar em cada um dos textos a definição de humanização no atendimento à saúde. No primeiro, essa definição estabelece uma relação entre os recursos humanos e tecnológicos e está apresentada de forma bem direta, logo no primeiro parágrafo:
       
     (…) a capacidade de oferecer atendimento de qualidade, articulando os avanços tecnológicos com o bom relacionamento.

Como a tarefa do aluno era elaborar uma síntese das informações de outros textos, acredito que não haveria problemas se esse trecho fosse usado na íntegra. Afinal, ele cumpre adequadamente a tarefa de definir o conceito e seu formato não é incompatível com o gênero síntese.
Já o segundo texto não tem uma definição tão direta de humanização no atendimento à saúde, mas sua leitura atenta permite concluir que ele identifica esse conceito com a atenção dada pelo médico ao paciente.

Para cumprir a tarefa b), o candidato deveria mostrar o ponto de vista de cada texto sobre os conceitos e também os argumentos que sustentam esses pontos de vista. O primeiro texto reproduz a opinião do Programa Nacional de Humanização da Assistência Hospitalar (PNHAH), segundo a qual a humanização é mais importante que a tecnologia (é usado o argumento de que os equipamentos tecnológicos não funcionam sozinhos). Já o segundo texto menciona a Escola de Medicina da Columbia University, em Nova York, e seu Programa de Medicina Narrativa. O artigo deixa claro que é necessário respeitar a visão do paciente sobre o processo, escutando o que ele tem a dizer (argumento: a vida pertence ao paciente, não ao médico). Para reforçar a efetividade do ato de ouvir o paciente, o texto informa, no último parágrafo, que o número de mortes diminuiu após a implantação do programa.

Cumpridas as tarefas a) e b), é fácil concluir com a c): o que une os dois textos é a percepção de que o fator humano é o maior responsável pelo sucesso dos tratamentos de saúde, embora seja muitas vezes colocado em segundo plano em relação à tecnologia ou aos dados técnicos da doença.

2. O locutor:

A banca pediu ao candidato que se colocasse como membro de um grupo de estudos formado por estudantes universitários. Alguns candidatos devem, por esse motivo, ter explicitado esse fato, dizendo algo do tipo “sou membro de um grupo de estudos e estou apresentando minha síntese sobre a leitura dos textos tal e tal...”. Porém, as informações presentes na proposta dão a entender que não é essa a intenção da banca, já que o propósito do gênero não é auxiliado por esse tipo de intervenção pessoal. Minha avaliação é a de que os examinadores irão valorizar textos impessoais, como ocorreu nos gêneros verbete e resumo.

Uma característica que foi importante no resumo, de 2013, e deve ser novamente relevante aqui, é a necessidade de marcar claramente a distância entre o locutor da síntese e os autores dos textos originais. Ou seja, ao invés de se apropriar das informações dos textos, escrevendo algo como “a humanização é a capacidade de oferecer atendimento de qualidade...”, o candidato provavelmente deveria escrever algo como

De acordo com o texto “Análise do discurso oficial sobre a humanização da assistência hospitalar”, de Suely F. Deslandes, a humanização é a capacidade de oferecer (...); no texto, a autora defende que (...)”

Com o uso desse tipo de linguagem, o leitor percebe rapidamente que está diante de um texto que dialoga com outro texto.

3. O interlocutor:

Embora isso não tenha sido explicitado, tudo indica que os interlocutores do texto são os outros membros do grupo de estudos. São pessoas que esperam receber o texto e sabem que são seus destinatários. Portanto, não parece haver necessidade de fazer referência direta a eles, tanto pelo propósito do gênero (essencialmente informativo) quanto pelo fato de que o texto será entregue diretamente aos leitores. Por isso, podemos imaginar um interlocutor universal como o mais adequado, principalmente se pensarmos na objetividade característica de um texto informativo (foi o que ocorreu também com os gêneros verbete, resumo e relatório). Para se dirigir a um interlocutor universal, basta não mencionar explicitamente quem é o leitor do texto.


4. Meio/estrutura:

A palavra síntese, embora não seja a primeira a vir à mente quando pensamos em gêneros textuais, é relativamente conhecida. Acredito que a maior parte dos alunos entendeu o que foi pedido sem muitas dificuldades. É claro que, como sempre é o caso na Unicamp, não basta conhecer o nome do gênero. Na prova de 2015, por exemplo, a síntese pedida é voltada a um grupo de estudantes e trata de um assunto de interesse do curso deles. É diferente, por exemplo, de fazer uma síntese dos dados econômicos de uma região, a ser entregue a um banco de investimentos.

Faz sentido que a síntese pedida pela Unicamp tenha um título do tipo “Síntese de textos sobre humanização no atendimento à saúde”. O motivo do título é simples: como o grupo irá receber (suponho) uma série de textos sobre temas diversos, é natural que esses temas sejam identificados, para facilitar a sua compreensão e organização. Não acredito, porém, que a Unicamp irá penalizar fortemente textos sem título. Porém, o uso da palavra “síntese” no título seria uma maneira simples de mostrar que o candidato entendeu qual é o gênero a ser produzido.

Outra possível estratégia para aumentar a clareza e caracterizar o texto como uma síntese é fazer uma topicalização da análise, separando os elementos a), b) e c) do Propósito em parágrafos diferentes. Novamente, porém, não creio que esse tipo de organização seja obrigatório.


5. A linguagem:

Tudo indica que deveria ser usada uma linguagem formal, objetiva e impessoal, devido à natureza informativa do texto e a uma orientação explícita da prova, que diz:

Você ficou responsável por elaborar uma síntese (...) que deverá ser escrita em registro formal (obs: o negrito está presente na versão original).

Enfim, essa é a minha análise do primeiro gênero. Não é nada oficial, apenas a leitura que eu fiz da proposta: por isso, não fique desesperado se você tiver feito algo diferente do que eu mencionei aqui.

Amanhã, se tudo der certo, eu posto o comentário do segundo gênero (carta-convite).

Até breve.

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